Curso de Química na Alameda Glette (1939-1965)

Autores: Viktoria Klara Lakatos Osorio

Revisores: Marina Mayumi Yamashita

Editores Associados: Leila Cardoso Teruya

No início de janeiro de 1939, a então chamada Subseção de Ciências Químicas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP saiu do edifício da Faculdade de Medicina para um prédio construído no ano anterior ao lado do palacete no número 463 da Alameda Glette. Permaneceu lá até dezembro de 1965, com o nome de Departamento de Química desde 1942.

O Palacete Jorge Street

Construído em fins do século XIX num terreno de 2.685 m2, na esquina da Alameda Glette com a Rua dos Guaianazes, em São Paulo, o palacete foi adquirido em 1916 por Jorge Street, médico e industrial carioca, que nele residiu com a sua família por mais de uma década. Nos anos 1920, após uma reforma projetada pelo arquiteto Hippolyto Gustavo Pujol Filho, o palacete mudou completamente de aspecto, ganhando em luxo e refinamento. Durante a crise mundial de 1929, o imóvel, hipotecado, passou a pertencer à Companhia de Seguros Sul América, que o vendeu ao governo estadual no segundo semestre de 1937 para receber setores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, até então instalados em locais provisórios.

O palacete, por volta de 1926, quando ainda era residência da família de Jorge Street. (Acervo da Família Street, imagem digitalizada por Carlos Ribeiro Vilela, a partir de fotocópia do positivo original)
 

O palacete e seus anexos, após adaptações, alojaram a administração e as cadeiras humanísticas da FFCL durante o primeiro semestre de 1938. Posteriormente, abrigou os departamentos de História Natural, de Química e de Geologia e também a disciplina de Psicologia Experimental, até a transferência desses setores para a Cidade Universitária, ocorrida entre 1955 e 1969.

O novo prédio da Química e as primeiras teses de doutorado

Com o seu primeiro prédio próprio, um edifício de três pavimentos, a Química passou a contar com três laboratórios de ensino com capacidade para 25 alunos cada, dois laboratórios de pesquisa, anexos para balanças e estufas, um depósito para drogas, uma biblioteca, um escritório, uma salinha para alojar um museu e um anfiteatro para 60 lugares. O anfiteatro foi usado nos anos seguintes também por outras seções da Faculdade e, em muitas ocasiões, para conferências.

Planta da primeira sede própria da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Na parte inferior, à direita, o projeto do prédio da Química. (Imagem reproduzida do encarte do Anuário da FFCL-USP 1937-1938, 1938)
 

 

1938. Prédio da Química na Alameda Glette, 463, em fase final de construção. (Imagem reproduzida do encarte do Anuário da FFCL-USP 1937-1938, 1938)
 

O corpo docente era então constituído pelos professores alemães Heinrich Rheinboldt e Heinrich Hauptmann e seus assistentes Jandyra França, Simão Mathias e Paschoal Senise, que se formaram na primeira turma da escola, em 1937. A pequena equipe contava, ainda, com os assistentes técnicos Herbert Stettiner e Elly Bauer.

No novo prédio, os jovens assistentes tiveram condições para desenvolver os seus trabalhos de doutorado e as três teses foram concluídas em fins de 1941. Embora inicialmente se pretendesse que Jandyra fosse a primeira a defender tese, programada para o início do ano letivo de 1942, Mathias, agraciado com uma bolsa da Fundação Rockefeller para se especializar em Físico-Química nos Estados Unidos, precisou antecipar a apresentação de sua tese. Foi necessário solicitar autorização especial para a defesa ocorrer fora do período letivo. Assim, em janeiro de 1942, durante a solenidade de formatura da turma de 1941 no Teatro Municipal, Simão Mathias recebeu do Diretor Fernando de Azevedo o seu diploma de Doutor, o primeiro doutoramento na FFCL. O seu orientador foi Heinrich Rheinboldt.

Retomadas as aulas em março de 1942, Jandyra apresentou a sua tese, no dia 23, sendo aprovada com nota 10,0. Foi a primeira mulher a se doutorar na USP. Constituíram a banca examinadora Heinrich Hauptmann (orientador), Heinrich Rheinboldt, Paulo Sawaya, Dorival Fonseca Ribeiro e Henrique Tastaldi.

Logo a seguir, a 17 de abril, Paschoal Senise também defendeu tese, perante uma banca composta por Heinrich Rheinboldt (orientador), Heinrich Hauptmann, André Dreyfus, Mario Domingues e Milton Estanislau do Amaral, sendo também aprovado com nota 10,0.

Ainda nesse ano de 1942, a 14 de novembro, ocorreu o doutoramento de Francisco Antonio Berti, graduado em 1939 e que não estava ligado ao corpo docente. A comissão julgadora foi formada por Heinrich Rheinboldt (orientador), Heinrich Hauptmann, Felix Rawistscher, Henrique Tastaldi e Paulo Sawaya.

Criação da Associação de Ex-Alunos de Química (1941)

Em junho de 1941, realizou-se a assembleia geral de fundação da Associação dos Ex-Alunos de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. O número de ex-alunos ainda era pequeno, não chegava a 30. A primeira diretoria eleita, com mandato de dois anos, era constituída por Simão Mathias, presidente, Jandyra França, secretária e Pedro Santini, tesoureiro. Entre as atividades desenvolvidas com bastante regularidade pela Associação, constava a concessão de bolsas a alunos do Departamento, através do Fundo para Bolsas de Estudo e a publicação, com recursos angariados pelo Fundo para Publicações Científicas, da revista Selecta Chimica, destinada principalmente à divulgação de trabalhos de caráter monográfico, com colaboração nacional e estrangeira. A Selecta Chimica teve periodicidade inicialmente semestral e depois anual. Publicada desde 1944, o seu último fascículo, reunindo os números 23 e 24, saiu em 1965.

Posteriormente, com a extinção da FFCL e a criação do Instituto de Química, a Associação passou a representar os químicos formados pela USP, denominando-se Associação dos Ex-Alunos de Química da USP e abrangendo também os estudantes de pós-graduação [link].

Ampliação do prédio e do corpo docente

A mudança da Química para o seu prédio próprio propiciou um rápido crescimento e, em pouco tempo, o espaço tornava-se novamente insuficiente. Em 1944-1945, com o apoio do Reitor Jorge Americano, foi construído um anexo de três pavimentos em parte do terreno que não era utilizado.

A ala nova foi edificada justapondo-se ao prédio original, com comunicação interna, de modo que os dois edifícios pareciam um só. Com a ampliação, foi possível instalar novos laboratórios e escritórios nos dois primeiros pavimentos, uma biblioteca maior no terceiro pavimento e um depósito para almoxarifado no porão.

Pouco mais tarde, foi construído um pequeno anexo de um só pavimento para a oficina hialotécnica, adjacente à sala prevista para abrigar o museu, projeto idealizado pelo professor Rheinboldt que nunca se concretizou. Ao invés do museu foi ali instalado nessa época o laboratório de microanálise elementar. O recinto da oficina hialotécnica, por sua vez, seria anos depois a sede do Centro de Estudos Químicos Heinrich Rheinboldt, CEQHR, agremiação fundada pelos estudantes de Química.

1947. Alunos na entrada do prédio da Química. Ao fundo, a porta do prédio original, à direita a ala nova e à esquerda, logo após a janela, parte da parede da sala onde seria o museu. No espaço embaixo dessa janela, foi construída a oficina do vidreiro. (Imagem cedida por Renato Giovanni Cecchini)
 

Na década de 1940, foi possível a contratação de novos assistentes para diversas cadeiras e o corpo docente passou a contar com Ernesto Giesbrecht, Madeleine Perrier, Marco Antonio Guglielmo Cecchini, Marcello de Moura Campos, Lucy Lacerda Nazario, Hanna Rothschild, Blanka Wladislaw e Astrea Menucci Giesbrecht.

No início de seu funcionamento, a única modalidade de diploma concedida pela FFCL era a de Licenciado. A partir de 1942, foram também emitidos diplomas de Bacharel. Em 1946, uma reforma alterou a duração do curso de três para quatro anos, incluindo também um curso de especialização com disciplinas de Química Preparativa e Química Industrial, que conferia o diploma de Bacharel com Atribuições Tecnológicas.

13/10/1947. Professor Heinrich Rheinboldt e alunos dos três primeiros anos do curso de Química, na entrada do palacete na Alameda Glette. (Arquivo Paschoal Senise, Centro de Memória do IQ-USP)
 

Em 05 de dezembro de 1955, o professor Rheinboldt faleceu repentinamente e o professor Hauptmann o sucedeu no comando do Departamento. O quadro de assistentes também passou por mudanças. Alguns docentes se desligaram, entre os quais, Jandyra, Marco Antonio, Marcello, Lucy, Hanna e Astrea. Na década de 1950, ingressaram Giuseppe Cilento, Luiz Roberto de Moraes Pitombo, Eurico de Carvalho Filho, Renato Giovanni Cecchini, Geraldo Vicentini, Lilia Rosaria Sant’Agostino, Aurora Catharina Giora Albanese e Eduardo Fausto de Almeida Neves. Atuaram também, por curtos períodos, Marina Rezende Fornasaro e Mario Renato Krausz.

À medida que o Departamento se desenvolvia, era cada vez mais afetado pelas limitações de espaço e pela precariedade das instalações, perdendo várias oportunidades de crescimento científico. O professor Hauptmann, na direção, empenhou-se em conseguir uma sede na Cidade Universitária, que possibilitasse a expansão, o aumento do número de vagas e a aquisição de equipamentos para a abertura de campos de pesquisa não explorados. Foi ele o mentor e o articulador do projeto de construção dos prédios que vieram a se chamar Conjunto das Químicas, destinados a reunir os diversos setores da Química Básica das escolas superiores da USP e onde se encontra atualmente instalado o Instituto de Química. Esse projeto era a pauta diária de Hauptmann, Simão Mathias, Paschoal Senise e Ernesto Giesbrecht. Em 21 de julho de 1960, a escola perdia o professor Hauptmann e coube a Simão Mathias, que assumiu a coordenação do Departamento, dar prosseguimento a essa tarefa.

Antes da mudança para a Cidade Universitária, o corpo docente ainda recebeu o reforço dos instrutores Divo Leonardo Saniotto, Klauss Zinner, Oswaldo Espírito Santo Godinho, Hans Viertler, Osvaldo Antonio Serra, Shirley Schreier, Fernando Galembeck e Francisco de Paula Camargo.

Criação da agremiação dos alunos de Química, o CEQHR (1960)

Os alunos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras tinham uma representação estudantil bastante atuante, o Grêmio. A sede do Grêmio acompanhou as andanças das cadeiras humanísticas da FFCL, ou seja, esteve alojado na Faculdade de Medicina (até junho de 1937), em uma mansão onde é atualmente a Biblioteca Mario de Andrade (2o semestre de 1937), na Alameda Glette (1º semestre de 1938), no prédio da Escola Normal Caetano de Campos (até 1949) e depois na Rua Maria Antonia. Os vários departamentos da FFCL se encontravam, porém, em locais dispersos e isso dificultava a ligação com o Grêmio. Procurando contar com uma agremiação mais atuante em relação aos assuntos específicos do seu curso, os alunos de Química resolveram fundar, em 1960, o Centro de Estudos Químicos Heinrich Rheinboldt, CEQHR. O primeiro presidente foi Osvaldo Antonio Serra, que então cursava o segundo ano. Sucedeu-o na presidência, em 1961, o seu colega de turma, Hans Viertler.

O CEQHR permaneceu como tal mesmo após a criação do Instituto de Química. Atuando como Centro Acadêmico, continuou a ser um órgão de confraternização dos estudantes e de interação com o corpo docente.

A Biblioteca da Química se instala no Palacete Street

Em meados de 1959, a cadeira de Biologia Geral do Departamento de História Natural, que funcionava no último andar, o antigo sótão, do palacete, mudou-se para a Cidade Universitária. A biblioteca, a secretaria e o gabinete do diretor do Departamento de Química foram transferidos em 1960 para o espaço liberado. O acesso se dava pela parte dos fundos do prédio, usando uma escada estreita e escura ou um pequeno elevador com porta pantográfica, que costumava parar entre os andares. O palacete já era então lendário e corriam rumores de fantasmas assombrando o local, como narra o químico Sergio Massaro em sua crônica A mansão dos Street numa rua chamada Alameda [link].

No início de 1966, o Departamento de Química também se transferiu para a Cidade Universitária. Após a reforma universitária de 1969, que criou os Institutos Básicos e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, extinguindo a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, o Departamento de Química da FFCL passou a integrar o Instituto de Química.

No começo dos anos 1970, o Conselho Universitário da USP aprovou a proposta de alienação da propriedade da Alameda Glette. A escritura de compra e venda tem a data de 06/05/1974. O palacete e seus anexos foram demolidos e atualmente (2015) funciona no terreno um estacionamento para carros. A única recordação dos tempos da faculdade, um símbolo para os que conviveram naquele local e que são chamados até hoje de glettianos, é uma figueira centenária, a Figueira da Glette, cujo processo de tombamento municipal pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) foi aberto em 22 de dezembro de 2007.

 
2003. A figueira centenária e trechos remanescentes do muro da antiga residência de Jorge Street. (Imagem cedida por Nelson Custódio da Silveira Filho)

Referências

MASSARO, S. Um Fantasma na Glette??? e A Mansão dos Street numa Rua chamada Alameda. In: ADES, C.; SABADINI, A.A.Z.P.; VILELA, C.R.; CARVALHO, N.G.; OSORIO, V.K.L., orgs. A Glette, o Palacete e a Universidade de São Paulo. São Paulo: Centro de Memória do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2014. p.229-234.

MATHIAS, S. O Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras: os primeiros anos. Química Nova, v.7, n.4, p.191-197, 1984. Disponível em: [link]

NEVES, E.F.A. Professor Paschoal Senise: meio século de atividades na USP. Química Nova, v.10, n.4, p.304-311, 1987. Disponível em: [link]

OSORIO, V.K.L. Alameda Glette, 463, sede do Curso de Química da Universidade de São Paulo no período 1939-1965. Química Nova, v.32, n.7, p.1975-1980, 2009. Disponível em: [link]

OSORIO, V.K.L.; VILELA, C.R.; CARVALHO, N.G.; SABADINI, A.A.Z.P.; ADES, C. O Palacete Jorge Street: um marco da infância da USP que não foi tombado. In: ALFONSO-GOLDFARB, A.M.; FERRAZ, M.H.M.; BELTRAN, M.H.R.; SANTOS, A.P., orgs. Simão Mathias - cem anos: química e história da química no início do século XXI. São Paulo: EDIT-SBQ: PUC-SP, 2010. p.107-120.

OSORIO, V.K.L. A Química na Glette. In: ADES, C.; SABADINI, A.A.Z.P.; VILELA, C.R.; CARVALHO, N.G.; OSORIO, V.K.L., orgs. A Glette, o Palacete e a Universidade de São Paulo. São Paulo: Centro de Memória do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2014. p.107-123.

SENISE, P. Origem do Instituto de Química da USP: reminiscências e comentários. São Paulo: Instituto de Química da Universidade de São Paulo, 2006. p.35-69. Disponível em: [link]