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O Conjunto das Químicas (1961-1969)

Autores: Viktoria Klara Lakatos Osorio

Revisores: Marina Mayumi Yamashita

Editores Associados: Leila Cardoso Teruya

A década de 1950 foi decisiva para a implantação da Cidade Universitária da USP na antiga fazenda Butantã. No período de 1951 a 1955, durante o governo de Lucas Nogueira Garcez, professor da Escola Politécnica, foram efetuados amplos serviços de terraplanagem, urbanização e abertura de ruas. Edifícios se erguiam para alojar cursos que se encontravam espalhados pela cidade. O Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, incumbido do curso de Química e instalado na Alameda Glette, já enfrentava problemas devido à escassez de espaço, porém, como funcionava em prédio próprio, a sua transferência para a Cidade Universitária não era considerada prioritária. O professor Heinrich Hauptmann, que assumiu a direção do departamento após o falecimento de Heinrich Rheinboldt, em dezembro de 1955, entendeu ser mais eficaz pleitear instalações que seriam compartilhadas com os grupos que ministravam Química Básica em outras faculdades.

 
1955. Professores Heinrich Hauptmann (acenando) e Quintino Mingóia, no laboratório de pesquisa do prédio da Química na Alameda Glette. À esquerda, de frente, Giuseppe Cilento. (Acervo de Blanka Wladislaw)

Antecipando em mais de uma década a integração por disciplinas implantada pela reforma universitária de 1969, o professor Hauptmann defendia a ideia de um conjunto de prédios reunindo os diversos setores de Química Básica da universidade em torno de uma grande biblioteca comum. Com o apoio de Antonio Barros de Ulhoa Cintra, catedrático de Clínica Médica da Faculdade de Medicina e com a adesão de grupos de Química Básica e Bioquímica de outras unidades, foi finalmente aprovado o projeto do conjunto arquitetônico que veio a se chamar “Conjunto das Químicas”.

 

Fotografia da maquete de um anteprojeto do Conjunto das Químicas. Foram acrescentados posteriormente os atuais Blocos 6, 12 e 22. (Arquivo Paschoal Senise. Centro de Memória do IQ-USP)

O professor Hauptmann faleceu aos 21 de julho de 1960, sem ter presenciado o início das obras. Neste mesmo mês, foi criado o Fundo para Construção da Cidade Universitária, por decreto do Governador Carvalho Pinto. O campus já se chamava então Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira (CUASO), denominação que fora conferida por decreto estadual de 28/08/1956, no governo de Jânio Quadros. A construção dos prédios do Conjunto das Químicas iniciou-se somente em julho de 1961, estando na direção do Departamento de Química da FFCL o professor Simão Mathias, que deu continuidade às ideias de Hauptmann.

1964. Vista aérea do Conjunto das Químicas em construção na Cidade Universitária. (Fotografia anexada a um processo de 1972 arquivado no Setor de Protocolo do Instituto de Química da USP)
 

Os prédios foram projetados por Alberto Daniel, arquiteto carioca formado em 1958 pela Faculdade Nacional de Arquitetura. A construção e a finalização estiveram a cargo da equipe do Fundo para Construção da Cidade Universitária, sob a supervisão do arquiteto José Roberto Leme Simões. O projeto destaca a caixa d’água, à frente do conjunto, como um elemento vertical que contrasta com a estrutura horizontal dos blocos, planejada assim por razões de segurança. Para baratear o custo da construção, os materiais foram utilizados em seu estado natural, como, por exemplo, o concreto e o tijolo.

1966. Vista geral da caixa d'água e dos Blocos 1 a 12 do Conjunto das Químicas, recém-construído na Cidade Universitária. (Arquitetura e Construção v.1 n.1 novembro 1966, p. 35. Fotógrafo Jack Tinguely)
 

Em 25 de janeiro de 1966, os edifícios foram inaugurados oficialmente pelo Governador Adhemar de Barros e, neste mesmo ano, instalaram-se nos blocos 1 a 12 os Departamentos, Cadeiras e Disciplinas Básicas de Química e Bioquímica, além de algumas afins, pertencentes a seis unidades da USP, a saber: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL); Faculdade de Farmácia e Bioquímica (FFB); Escola Politécnica (EP), Faculdade de Medicina (FM), Faculdade de Odontologia (FO) e Faculdade de Medicina Veterinária (FMV). Os blocos 13 a 22 do Conjunto das Químicas alojaram a Faculdade de Farmácia e Bioquímica (atual Faculdade de Ciências Farmacêuticas) e o Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica.

Instalação dos Departamentos, Cadeiras e Disciplinas de Química e Bioquímica da USP no Conjunto das Químicas (1966)

A Seção de Protocolo do Instituto de Química guarda em seus arquivos cópias das plantas da obra (Obra 25 – Setor I – CUASO), onde estão especificados em cada bloco os setores que lá seriam instalados e os professores responsáveis:

Blocos 1 e 2 – Química Geral e Inorgânica da FFCL (Prof. Ernesto Giesbrecht) e Química Analítica da FFCL (Prof. Paschoal Senise)

Bloco 3 térreo – Físico-Química da FFB (Prof. Orsini)

Bloco 4 térreo – Físico-Química da FFCL (Prof. Hans Stammreich)

Blocos 3 e 4 superiores – Físico-Química da FFCL (Prof. Simão Mathias)

Bloco 5 térreo – Química Orgânica da FFCL (Profa. Blanka Wladislaw)

Bloco 5 superior – Química Orgânica da FFCL, EP e FFB (Professores Blanka Wladislaw, Marcello de Moura Campos e Paulo Carvalho Ferreira)

Bloco 6 térreo – Biblioteca, depósito, portaria

Bloco 6 superior – Administração, setor social dos alunos, bar, anfiteatro

Bloco 7 – Químicas, 2ª etapa (planta assinada por Ivo Giolito, da FFB, em 21/01/1966)

Bloco 8 – Químicas, 2ª etapa (planta assinada por Ebe Barbieri Melardi, da FFB, em 31/01/1966)

Bloco 9 – Bioquímica da FO e FMV (Professores Tastaldi e Bonaldi)

Bloco 10 térreo – Bioquímica da FM (Prof. Isaias Raw)

Bloco 10 superior – Bioquímica da FFCL (Prof. Giuseppe Cilento)

Bloco 11 – Químicas, 2ª etapa

Bloco 12 – Físico-Química e Eletroquímica (planta assinada por Ivo Jordan, da EP, em 07/12/1964)

Em fins de 1965, o grupo de Bioquímica, liderado pelo professor Isaias Raw, da cadeira de Química Fisiológica da Faculdade de Medicina, transferiu-se para o Bloco 10 ainda em fase de acabamento e, em meados de 1966, todos os demais já se encontravam instalados no conjunto de edifícios, cada um mantendo a vinculação administrativa com a sua faculdade, vínculo que perdurou até 1969.

O prédio dos auditórios do Conjunto das Químicas foi inaugurado em 20 de abril de 1966 por Otto Richard Gottlieb, cientista pioneiro na área de Fitoquímica, que proferiu conferência intitulada “Os Jacarandás. Após 400 anos de Carpintaria, 4 anos de Química”.

 
1966. A marquise em frente ao Bloco 6 e o edifício circular com os cinco anfiteatros do Conjunto das Químicas, recém-construído na Cidade Universitária. (Arquitetura e Construção v.1 n.1 novembro 1966, p. 39. Fotógrafo Jack Tinguely)

Primeiras defesas de tese de doutorado no Conjunto das Químicas

A 19 de abril de 1966, pouco depois da mudança do Departamento de Química da FFCL para o Conjunto das Químicas, Eduardo Fausto de Almeida Neves tornou-se Doutor em Ciências, na área de Química Analítica, perante uma comissão julgadora formada por Paschoal Senise (orientador), Ernesto Giesbrecht, Simão Mathias, Ivo Jordan e Eurico de Carvalho Filho. Foi a primeira defesa de tese de doutorado nas novas instalações.

Várias outras defesas de tese ainda ocorreriam antes de 1970, ano da implantação do Instituto de Química, todas ainda vinculadas às unidades de origem. Os doutores em Ciências pela FFCL foram: Divo Leonardo Saniotto (23/08/1966), Marcos Berenholc (19/06/1967), Klauss Zinner (13/11/1967), Osvaldo Antonio Serra (09/05/1969), Hans Viertler (16/05/1969), Shirley Schreier (06/06/1969), Oswaldo Espírito Santo Godinho (06/08/1969), João Pedro Zimmermann (05/12/1969), Rogério Meneghini (12/12/1969) e Hugo Aguirre Armelin (15/12/1969). Docentes vinculados a outras unidades também se doutoraram, como Ricardo Renzo Brentani (1966), Walter Colli (1966), Thuioshi Ioneda (1967), José Carlos da Costa Maia (1968), Ivo Giolito (1968), Rubens Rosa (1969), Flavio Althertum (1969) e Ezequiel Waisbich (1969).

06/08/1969. Banca da defesa de tese de doutorado de Oswaldo Espirito Santo Godinho. A partir da esquerda: Renato Giovanni Cecchini, Geraldo Vicentini, Paschoal Senise (orientador), Simão Mathias e Ernesto Giesbrecht. (Imagem cedida por Renato Giovanni Cecchini)
 

Até 1974, mais 56 pós-graduandos, matriculados nas respectivas unidades anteriormente à criação do Instituto de Química, defenderiam tese. Os títulos de doutoramento foram obtidos no Instituto de Química nos termos do Artigo 143 do Estatuto da Universidade de São Paulo, que garantiu a esses estudantes o prazo de três anos a partir de 1° de janeiro de 1970 para a defesa de suas teses nos termos da legislação vigente no ato da matrícula.

18/11/1971. Defesa de tese de doutorado de Pedro Soares de Araujo, no anfiteatro do Bloco 8 inferior. Na banca, a partir da esquerda: Klauss Zinner, Hernan Chaimovich, Walter Colli (orientador, substituindo Isaias Raw), Ricardo Renzo Brentani e Giuseppe Cilento. (Imagem cedida por Henrique Eisi Toma)

Conjunto das Químicas nos anos 1966 a 1969

Com a transferência do curso de Química para os prédios na Cidade Universitária, em 1966, foi possível aumentar o número de vagas na graduação e teve início um processo de expansão científica, com a abertura de novos campos de investigação e interação com professores estrangeiros.

Além dos Departamentos, Cadeiras e Disciplinas Básicas de Química e Bioquímica da FFCL, FFB, EP, FM, FO e FMV, instalaram-se também no Conjunto das Químicas os grupos de Hans Stammreich, que dirigia no Departamento de Física da FFCL um laboratório de pesquisa em espectroscopia molecular internacionalmente reconhecido, e de Otto Richard Gottlieb, fundador do Laboratório de Química de Produtos Naturais, criado pela FAPESP em 1967 e por ela mantido até a sua incorporação ao Instituto de Química em 1970.

A Biblioteca do Conjunto das Químicas, que teve origem em 1965 pela integração dos acervos bibliográficos da FFB e do Departamento de Química da FFCL, exerceu papel importante no processo de integração dos setores transferidos para o Conjunto das Químicas. A reunião geográfica de químicos, farmacêuticos, engenheiros, físicos, médicos, biólogos, médicos veterinários e odontólogos no Conjunto das Químicas representou uma experiência pioneira dentro da Universidade. Quatro anos de convívio prepararam o terreno e abriram o caminho para se chegar de maneira natural à formação do Instituto de Química, implantado oficialmente em 1° de janeiro de 1970.

Referências

CAMPOS, E.S. História da Universidade de São Paulo. São Paulo: Saraiva, 1954. p.228-251.

COLLI, W. O Instituto de Química da Universidade de São Paulo: 25 anos de ensino e pesquisa. Química Nova, v.18, n.6, p.584-591, 1995. Disponível em: [link]

MATHIAS, S. Cem anos de Química no Brasil. São Paulo: [s.n.], 1975. p.27-29. (Coleção da Revista de História, 63). NEVES, E.F.A. Professor Paschoal Senise: meio século de atividades na USP. Química Nova, v.10, n.4, p.304-311, 1987. Disponível em: [link]

SENISE, P. Origem do Instituto de Química da USP: reminiscências e comentários. São Paulo: Instituto de Química da Universidade de São Paulo, 2006. p.71-78, 98-107. Disponível em: [link]

TOMA, H.E.; VIERTLER, H.; MARZORATI, L.; COLLI, W., orgs. O Instituto de Química da Universidade de São Paulo: ensino, pesquisa e desenvolvimento, 1970-1986. São Paulo: Instituto de Química, 1987. 213p.

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