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Os primeiros anos do Curso de Química (1935-1938)

Autores: Viktoria Klara Lakatos Osorio

Revisores: Marina Mayumi Yamashita

Editores Associados: Leila Cardoso Teruya

O curso de Química da Universidade de São Paulo (USP) teve origem na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), criada pelo decreto estadual de fundação da USP de 25 de janeiro de 1934. O curso foi oferecido a partir de 1935 pela Subseção de Ciências Químicas, a terceira das seis subseções que compunham a Seção de Ciências da FFCL.

Ao ser criada, a faculdade não dispunha de sede própria, nem de corpo docente. No primeiro semestre de 1934, o seu primeiro diretor, Theodoro Augusto Ramos, professor de Matemática da Escola Politécnica e um dos fundadores da Universidade, viajou à Europa para contratar professores. O espaço para a instalação da faculdade foi cedido em caráter provisório por outras escolas da USP. As subseções de Ciências Físicas e Matemáticas iniciaram suas atividades no prédio da Escola Politécnica. Os demais setores ficaram alojados no edifício da Faculdade de Medicina, concluído três anos antes, na Avenida Dr. Arnaldo, 455, onde foi proferida, aos 17 de julho de 1934, um pouco tardiamente, a aula inaugural da FFCL. A Subseção de Ciências Químicas se instalou em dependências cedidas pelo Departamento de Farmacologia, na ala posterior direita do terceiro pavimento desse prédio.

Prédio da Faculdade de Medicina, onde começou o curso de Química da USP em 1935. (Imagem reproduzida da p. 33 da publicação "O espaço da USP: presente e futuro". São Paulo: A Prefeitura da CUASO. 1985)

Para organizar e implantar o curso de Química, foi contratado na Alemanha o Professor Heinrich Rheinboldt, de 43 anos, chefe de departamento na Universidade de Bonn, onde tinha oito assistentes e já orientara 35 teses de doutoramento. Aos 12 de maio de 1934, firmou contrato com a Universidade de São Paulo e chegou a São Paulo no mês de julho. No restante do ano, empenhou-se em adaptar e equipar as instalações provisórias na Faculdade de Medicina, contando com o auxílio de Herbert Stettiner, químico alemão residente em São Paulo, contratado como assistente técnico, e Elly Bauer, encarregada inicialmente dos serviços de secretaria.

Em dezembro de 1934, por indicação de Rheinboldt, Antonio de Almeida Prado, o segundo diretor da FFCL, convidou Heinrich Hauptmann, também alemão, que se encontrava na École de Chemie de Genebra, para o cargo de assistente científico na Subseção de Ciências Químicas. Hauptmann chegou a São Paulo em fevereiro de 1935, com trinta anos incompletos.

Os professores alemães, fundadores do curso de Química da USP. (Acervo da Administração do IQ-USP)

O curso teve início em março de 1935, quando o professor Rheinboldt ministrou no anfiteatro da Farmacologia a sua primeira aula, em francês, perante uma mesa repleta de aparelhagens montadas para a execução de experimentos de Química. Iniciava-se, então, uma tradição de ‘preleções experimentais’ que perdurou por muito tempo na escola.

Mesa com montagens de experimentos demonstrativos para aula de Química do Prof. Heinrich Rheinboldt. Anfiteatro da Cadeira de Farmacologia, Faculdade de Medicina. (Imagem cedida por Henrique Eisi Toma)

Dos quarenta alunos que se matricularam no primeiro ano em 1935, apenas quatro concluíram o curso em três anos, o prazo regulamentar na época. A primeira turma de químicos diplomados pela FFCL-USP era composta por Jandyra França, Simão Mathias, Paschoal Ernesto Américo Senise e Luciano Barzaghi.

Os graduandos da FFCL recebiam a “licença cultural ou científica”, ou seja, o diploma de licenciado, que a faculdade resolvera emitir em língua latina para acentuar o caráter cultural dos seus cursos. Os químicos formados em 1937 receberam o diploma de Licentiae Gradu in disciplinis dictis – Sciencias Chimicas, assinado por Ernesto de Souza Campos, terceiro diretor (Facultatis Moderator) da FFCL (Philosophiae, Scientiarum Litterarumque Facultas) e por Reynaldo Porchat, Reitor (Universitatis Rector) da USP (Universitas Paulopolitana). Em seu livro sobre a origem do Instituto de Química, o professor Senise relata as dificuldades oriundas desse diploma em latim, quando se propôs a registrá-lo no Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, conforme regulamentado pelo governo federal para o exercício da profissão, e precisou encontrar um tradutor juramentado.

1937. Quadro de formatura da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, quando os primeiros químicos se graduaram. (Arquivo Paschoal Senise, Centro de Memória do IQ-USP)

O ano de 1937 foi crítico para os setores da FFCL alojados no prédio da Faculdade de Medicina. O curso de Química só dispunha de um laboratório medindo 45 m2 para as aulas práticas. O sistema de ensino se baseava no intenso trabalho diário individual no laboratório e o espaço disponível se tornou insuficiente para acomodar as três turmas de alunos matriculados, ingressantes em 1935, 1936 e 1937. Em junho, foi conseguida uma verba para ampliar as instalações, aproveitando o espaço de um terraço contíguo que constituía a cobertura do pavimento inferior. Logo no início das obras, porém, os alunos da Medicina se revoltaram e atearam fogo aos andaimes da construção. Esse episódio, conhecido como a “derrubada da torre da Filosofia”, resultou no pedido de demissão dos dois diretores, Antonio de Almeida Prado, da FFCL, e João de Aguiar Pupo, da Faculdade de Medicina, e na necessidade urgente da FFCL procurar outras acomodações.

Laboratório didático do curso de Química no prédio da Faculdade de Medicina. (Arquivo Paschoal Senise, Centro de Memória do IQ-USP)

Ernesto de Souza Campos, assumindo a direção da FFCL em 24 de junho de 1937, conseguiu instalar, pelo prazo de seis meses, a Administração e as cadeiras humanísticas num velho casarão situado no número 76 da Rua da Consolação, que aguardava ser demolido para lá se construir a Biblioteca Municipal Mario de Andrade. Os setores que dependiam de laboratório, entre eles o de Química, permaneceram no prédio da escola médica. Nesse mesmo ano, o governo estadual adquiriu o imóvel situado na Alameda Glette, 463, para instalar uma sede própria para a FFCL. No local existia um palacete que pertencera ao médico e industrial Jorge Street. Durante 1938 foi construído, em parte disponível do terreno, um prédio especial para a Química. Em janeiro de 1939, a Subseção de Química (que se denominaria Departamento em 1942) saiu finalmente do edifício da Faculdade de Medicina para o seu primeiro prédio próprio, na Alameda Glette, iniciando uma nova fase de desenvolvimento.

Referências

LACAZ, C.S. Faculdade de medicina: reminiscências, tradição, memória da minha escola. 2.ed. São Paulo: Atheneu, 1999. p.100-101.

MATHIAS, S. O Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras: os primeiros anos. Química Nova, v.7, n.4, p.191-197, 1984. Disponível em: [link]

SENISE, P. Origem do Instituto de Química da USP: reminiscências e comentários. São Paulo: Instituto de Química da Universidade de São Paulo, 2006. p.19-35. Disponível em: [link]

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