Química em Ação

Autores: Maria Regina Alcântara , Viktoria Klara Lakatos Osorio

Revisores: Paulo Alves Porto

Editores Associados: Leila Cardoso Teruya

Quando ainda era aluno de graduação do curso de Química da USP em 1964, o Prof. José Atílio Vanin teve a ideia de montar um show de demonstrações para a divulgação da Química. Sua ideia somente viria a se concretizar em 1985, quando estreou o show que ficou conhecido como “Química em Ação”. O grupo responsável pelas apresentações era formado por alunos de graduação do Instituto de Química da USP e contava com o Prof. Atílio na concepção e com a Profa. Maria Regina Alcântara na organização. A proposta era formar uma equipe paradidática com o objetivo principal de promover a imagem da Química e dos químicos junto a estudantes do Ensino Básico e o público em geral. Procurava-se difundir uma visão positiva da Química e de sua importância como Ciência e Tecnologia para o bem estar da coletividade. O “Química em Ação” era uma aula informal e bem humorada, desenvolvida com utilização maciça de recursos audiovisuais e demonstrações químicas, abordando fundamentos da Ciência e procurando desfazer falsas imagens.

As origens do Grupo são relembradas por Alexandre Guimarães Brolo, em depoimento reproduzido no artigo “José Atílio Vanin, 10 anos depois”, de autoria da Profa. Dalva Lucia Araújo de Faria, publicado nas páginas 5 e 6 do número 78 do jornal Alquimista, em maio de 2011. Exaluno do Instituto de Química, formado em 1989, atualmente professor do Departamento de Química da Universidade de Victoria, Canadá, Alexandre comenta a sua primeira semana de aulas no Instituto, em 1985:

“Naquela época, o Atílio dava um seminário de boas vindas aos calouros, aonde ele descrevia o Instituto e a carreira científica. Eu tinha acabado de entrar no curso e não sabia muito bem o que fazer quando acabar. A palestra do Atílio simplesmente abriu os meus olhos para a pós-graduação. Não apenas pelos fatos e a descrição clara do caminho de formação científica que ele mostrou, mas principalmente pelo seu entusiasmo. Aquela palestra foi uma das maiores experiências de motivação que eu vivi.”

“Depois de alguns meses da palestra, eu fui pessoalmente conversar com o Atílio (junto com outros alunos) para discutir ideias para uma semana da química que a gente queria implementar. Novamente saímos fascinados. Naquela reunião ele mostrou as ideias para um “show de química”, que nós achamos sensacional. Nosso grupo abraçou aquela ideia e começamos o “Química em Ação”. Novamente, essa foi outra experiência marcante, que sem dúvida ajudou a direcionar a minha carreira, principalmente para o ensino. O Atílio era um mágico (mágico mesmo, daqueles que fazem truques) e ele sempre tentava nos mostrar como introduzir conceitos químicos de uma forma que despertasse a atenção e o interesse.”

O primeiro show era a concepção das aulas do Prof. Atílio, com as demonstrações utilizadas por ele nas disciplinas que ministrava. Com o tempo, ele passou a se encarregar principalmente da interface com a mídia e em ajudar na seleção de novos experimentos para os shows. A Profa. Regina acompanhava a equipe na escolha dos experimentos e montagem do show e na organização geral da equipe, com o balanço de consumo dos reagentes, gerenciamento do espaço utilizado, procura de verbas para aquisição de reagentes, divulgação e principalmente, como elo de ligação entre os alunos e o Instituto de Química, que na época fornecia considerável suporte para a atividade.

O “Show de Química” começou como uma atividade da II Semana da Química do Instituto de Química da USP em 1985. A formação inicial contava com quatro alunos (Alexandre Guimarães Brolo, Alfredo Luis Martins Lameirão Mateus, Oswaldo Felippe Jr. e Sergio Fernando Roque) e em 1986 já dispunha de quinze integrantes. Nos anos seguintes, foi apresentado centenas de vezes, em diferentes cidades do país, incluindo algumas capitais como Curitiba, Goiânia, Brasília e Fortaleza. Entre 1985 e 1989, foram montados ao todo quatro shows diferentes:

“Química em Ação: a Imagem da Química e dos Químicos”

“A Química e os Ecossistemas”

“A História da Química Contada pelo Química em Ação”

“A Química e os Meios de Comunicação”

Estes shows eram montados anualmente com estreia, sempre em grande estilo, durante as Reuniões Anuais da Sociedade Brasileira de Química (SBQ) que naquela ocasião, ocorriam juntamente com as Reuniões da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com três apresentações sempre bastante concorridas.

Em 1987, com a inauguração da Estação Ciência, um museu de Ciência e Tecnologia vinculado ao CNPq e ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e que, posteriormente foi incorporado à USP, o Grupo “Química em Ação” foi convidado a fazer parte da exposição representando a área de Química. A Equipe do “Química em Ação” passou a fazer apresentações regulares com shows às terças e quintas à noite, e aos sábados e domingos à tarde, todas as semanas. De todo modo, isto significava reuniões semanais de supervisão, definição de escala para as apresentações na Estação Ciência, aquisição de materiais e reagentes, além da criação do “novo show” que deveria ser montado para o ano seguinte.

Totalizando mais de 300 apresentações e contabilizando um público superior a 50.000 pessoas, o “Química em Ação” passou a ser conhecido em todo o Brasil e até em alguns lugares fora dele, e a ideia multiplicou-se em Instituições de todo o país.

Como resultado desse trabalho ficou uma apostila com as experiências apresentadas, um artigo publicado em revista internacional e vários resumos apresentados em congressos nacionais e internacionais. Merece destaque a apresentação de três trabalhos, em forma de pôster, na 10th International Conference on Chemical Education, realizada em agosto de 1989, em Waterloo, Canadá, com o título geral “Chemistry for the Public in Brazil” e os subtítulos “I. A Science Museum Chemistry Show Experience”, “II. Chemistry and the Ecossystems” e “III. The History of Chemistry as told by Chemistry in Action”.

O artigo, de autoria do “The Brazilian Chemistry in Action Group”, foi publicado em 1991 na revista Journal of Chemical Education, vol. 68, p. 652, sob o título “Picturing the Chemical Relevance”, e propõe uma abordagem didática e humorística para demonstrar a presença e a importância da Química e dos produtos químicos no cotidiano. Toma como exemplo um carro e seu motorista, e apresenta uma série de desenhos em quadrinhos nos quais vão sendo suprimidas as partes ou peças que envolvam qualquer processo ou substância produzida por transformações químicas, até que nada resta. Em nota de rodapé consta a composição do grupo, a saber, seus coordenadores José Atílio Vanin e Maria Regina Alcântara e os participantes Adriana Napoleão Geraldes, Alexandre Augusto de Azevedo Sampaio, Alexandre Guimarães Brolo, Alfredo Luis Martins Lameirão Mateus, Armando de Souza Maia Jr., Claudia Maria Langer, Décio Daltin, Eliete Zanardi, Hsueh Yi Tsen, João Joakim Thoren Wagner, Maisa Helena Altarugio, Marcelo Paes de Barros, Marcelo Ramanoski, Marcos Alberto Autuori Leme, Maria de Fátima Paredes de Oliveira, Mitzi Schaaf Lessa, Noêmia Maria Cardoso Aires, Oswaldo Felippe Jr., Paulo Alves Porto, Regiane Frignani, Sergio Fernando Roque e Solange Wagner Locatelli.

Com a experiência adquirida no trabalho de divulgação científica, foram iniciadas consultorias de divulgação em programas de TV, com participações no Programa “Eureka”, produzido pela TV Cultura. Durante quase um ano, a equipe colaborou com a produção do programa, que era gravado ao vivo no Teatro Franco Zampari, todas as sextas feiras. A participação no programa incluía várias atividades, desde a apresentação de “performances”, proposição de desafios ou, ainda, montagem de oficinas de trabalho, sempre para alunos do ensino médio.

Por volta de 1989, o Prof. Atílio já se afastara do projeto por achar que esta deveria ser uma atividade exclusiva dos alunos, sem nenhum gerenciamento de docentes. Por volta de 1990, a segunda composição da equipe já havia se formado, uma nova equipe começou seus trabalhos e a Profa. Regina também se afastou.

Em 1990, uma pequena equipe formada por Oswaldo Felippe Júnior, Décio Daltin (dois remanescentes da primeira formação do grupo Química em Ação), a Profa. Regina e o Prof. Atílio começou a colaborar com a Rede Globo, propondo experiências para a abertura do Programa “Globo Ciência” que era apresentado semanalmente. Nele, eram montadas experiências de abertura, visando estimular a curiosidade dos telespectadores. No meio do programa a experiência era reapresentada e a explicação do fenômeno era fornecida, tudo em no máximo 5 minutos. Só para o “Globo Ciência”, foram mais de 70 experiências preparadas e gravadas, o que significava horas de gravação utilizando o laboratório de Físico-Química Experimental, com um grande aparato montado entre atores e equipe técnica.

O artigo do jornal Alquimista referido no segundo parágrafo deste texto também reproduz um depoimento do Prof. Peter Wilhelm Tiedemann sobre o Grupo:

"Quando Atílio já era docente e pesquisador experimentado do Instituto de Química, o desejo de demonstrar experimentos de química publicamente concretizou-se ao criar o grupo “Química em Ação”. Inicialmente interessou alguns alunos que cursavam o segundo ano, promovendo reuniões com eles, geralmente no laboratório de Físico-Química, no qual lecionava, no fim das tardes de terça-feira. Discutiam o formato das apresentações e o elenco de experimentos. Atílio era um grande orador e sentia enorme prazer em falar para uma grande platéia, nunca perdendo a oportunidade de dar entrevistas ou depoimentos no rádio e na televisão. Era de se esperar que fosse exercer um papel preponderante na hora das apresentações do grupo “Química em Ação”. Mas aqui reside seu grande mérito: Nunca compareceu a essas apresentações, deixando-as figurar como exclusiva iniciativa dos alunos. Isso fez com que o grupo de alunos tenha se renovado ao longo dos anos e o trabalho continue, às vezes com maior entusiasmo, às vezes, com menor empenho, mas o ideal de Atílio persiste até os dias de hoje e sua obra o sobrevive amplamente."

Atualmente, o grupo é orientado pelos professores Fabio Rodrigues e Lucas Carvalho Veloso Rodrigues, e possui quatro espetáculos montados: “A Química das Sensações”, no qual são demonstradas reações químicas que mexem com os sentidos (visual, tátil, olfativo e auditivo); o “IQ-TV”, em formato de telejornal; “A Química na História”, abordando eventos históricos nos quais o conhecimento químico teve grande importância; e o “Quimitaverna”, no qual personagens históricos marcantes discutem a ciência numa mesa de bar. Os dois primeiros espetáculos são voltados para o público do ensino médio e os outros dois para o ensino superior.

As peças representadas, além do cunho didático, possuem uma dose de bom humor, com o intuito de facilitar o entendimento dos assuntos, mostrando também que a Química pode ser divertida e não é tão difícil como parece. Vídeos com trechos de apresentações, gravados em 2014, podem ser apreciados na reportagem [link].

Outras informações sobre o Grupo estão disponíveis na sua página na internet [link].